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PD0066

Armário
Autor: Desconhecido
Centro de Fabrico: Desconhecido
Data: Século XVIII
Material: Madeira (castanho) e metal
Dimensões (cm): Alt. 225; larg. 172,5; prof. 83
N.º de Inventário: PD0066

«O Armário é “um móvel de conter, desenvolvendo‐se geralmente em altura, constituído por um ou mais corpos fechados, acessíveis por portas, painéis deslizantes ou extensíveis. […] O seu interior é composto por elementos para suspensão, prateleiras e/ou gavetas. Assenta em pés fixos, soltos, ou em rodapé”. Dentro das características, este móvel pode classificar‐se como armário louceiro que Sousa carateriza assim: “móvel constituído em geral por dois corpos, sendo o superior mais alto, utilizado para guardar e expor loiça. […] No seu interior possui geralmente prateleiras ou divisórias próprias para fixar as peças” (SOUSA, 2004: 91 e 92).
[…]
O Armário é constituído por dois registos, inferior e superior, cada um dos quais com oito almofadas decoradas. As oito almofadas superiores apresentam motivos vegetais, animais e duas figuras, uma masculina e outra feminina, ambas transportando cestos à cabeça, o que poderá talvez simbolizar a abundância.

As almofadas do registo inferior estão decoradas com oito músicos, cada qual a tocar um instrumento diferente, a saber: violino, clarinete, fagote, oboé, flauta transversal, tamboril e flauta, viola de braço e guitarra
Eduardo Magalhães

“A Música nas coleções do Paço”
«O violino encontra‐se representado na primeira almofada do corpo inferior do armário […] A figura, de veste, sobreveste, culotes e de chapéu na cabeça, encontra‐se de pé, no exterior, e em posição de execução do instrumento.
[…]
O instrumento, bastante estilizado, não permite perceber pormenores que ajudem a caraterizá‐lo melhor. Aparenta ter um tamanho menor do que seria habitual, atendendo à proporção com a figura do músico.
[…]
O clarinete encontra‐se representado na segunda almofada […]. O músico encontra‐se sentado e de pernas ligeiramente cruzadas, entre motivos vegetais, a tocar o instrumento. Aparece vestido à “moda” dos séculos XVI e XVII: sobreveste, veste e culotes, embora pouco percetíveis. Pelo seu aparente tamanho, já que a imagem não dá para uma observação pormenorizada, o instrumento é do género dos utilizados inicialmente nas orquestras […]. Eram instrumentos de, aproximadamente, entre 50 e 60 cm de altura. Pela ausência (ainda) da campânula na extremidade, este clarinete assemelha‐se ao exemplar mais antigo que se conservou até hoje, o de Gottlieb Crone.
[…]
A flauta transversal encontra‐se representada na terceira almofada […]. O flautista do armário apresenta‐se, como todas as outras figuras, elegantemente vestido, de sobreveste, veste e culotes, de cabeça descoberta. […] Toca ao ar livre, a ter em conta o arbusto que está no seu flanco.

Embora pouco visível nos seus pormenores, a flauta aparenta ser o modelo barroco, construído em três partes (passaria a quatro, posteriormente), mas ainda de madeira com anéis de marfim nas uniões. A junção de uma chave no conjunto dos orifícios não se percebe na figura. A chave era acionada pelo dedo mindinho da mão direita (aqui na figura, porque invertida, da mão esquerda).
[…]
A flauta de tamborileiro encontra‐se representada na quarta almofada […]. A figura do tamborileiro apresenta‐se, como as anteriores, vestida de forma elegante, de barrete na cabeça, em atitude de toque, ao ar livre, entre dois arbustos. Uma perna em frente à outra pode significar que toca em andamento. A figura está invertida (técnica do poncif). Enquanto se pode considerar o tamboril de tamanho adequado, já a flauta, em relação ao pequeno tambor, julga‐se um bocado grande até a atender ao diâmetro do tubo bastante estreito.

Em Portugal, o Tamborileiro é próprio da tradição popular do nordeste transmontano, nas terras de Miranda do Douro
e do baixo Alentejo. Na raia mirandesa, tanto é utilizado em funções rituais religiosas (atuando mesmo no interior das igrejas) como em “números” de festas populares, como a dança dos velhos ou a festa dos rapazes, conjuntamente ou a substituir a gaita‐de‐foles. Já na região alentejana, a sua função cabe unicamente nas festas religiosas, excluindo‐se qualquer função na música tradicional (OLIVEIRA, 2000: 259).

O Tamborileiro é uma imagem recorrente na iconografia medieval. A sua associação à música mais do género popular não impedia que este músico, na Idade Média, muitas vezes a solo, animasse também bailes da nobreza. Martine Clouzot, a propósito das miniaturas que ilustram a literatura desse período, escreve que em substituição da harpa e do alaúde, os instrumentos por excelência da dança, são a flauta e o tamboril: “a associação destes dois instrumentos na iconografia junta a realidade da música de dança, seja na corte ducal ou em qualquer outra festa”. (CLOUZOT, 2007: 188)
[…]
Tamboril é sinónimo de Tamborim ou seja, um tambor pequeno. Quando tocado em simultâneo com a flauta, por uma mesma pessoa, tanto pode significar o instrumento como também designar o tocador. Andrés apresenta uma definição muito simples para o instrumento: “Tambor pequeno associado à música de celebração tocada ao ar livre” (ANDRÉS, 2009: 411). Como tambor, é idêntico aos seus congéneres maiores: ilhargas altas e duas membranas em cada um dos lados do tamboril. As peles são esticadas através de cordas. Em proporção ao tambor normal, o tamboril tem a caixa cilíndrica mais estreita. Normalmente, possui cordas esticadas na membrana inferior, a que se dá o nome de “bordões”.

O instrumento é preso por uma alça no ombro esquerdo e percutido por uma baqueta com a mão direita. A mão esquerda fica livre para tocar a flauta de três orifícios.

O tamboril do Armário é um tambor bastante pequeno comparativamente ao tamanho da flauta tocada pelo músico. Por outro lado, e devido à técnica do Poncif, a imagem mostra os instrumentos tocados pelas mãos trocadas. O tamboril é percutido pela mão direita do músico e a flauta pela mão esquerda.
[…]
O fagote encontra‐se representado na quinta almofada do armário […]. À semelhança dos demais instrumentistas […], o fagotista apresenta‐se com trajes elegantes, de chapéu, veste, sobreveste e culote. O instrumento tangido na figura está um pouco estilizado e, pela aparência, poder‐se‐ia até supor que fosse o seu antecessor, o baixão que, embora com o tubo dobrado, era feito numa só peça de madeira. O músico está em postura de tocar, ao ar livre, pela sugestão dos arbustos que o ladeiam.

A imagem aparece invertida (as mãos trocadas) o que comprova, uma vez mais, a utilização do muito habitual método do Poncif.
[…]
O oboé […] [está s]ituado na sexta almofada do armário, o músico encontra‐se de pé, em plena execução do instrumento, ladeado por dois arbustos. Ao contrário do clarinete, a figura não está invertida: corretamente, tapa com a mão esquerda os orifícios da parte superior do oboé. É uma figura trajada elegantemente, de veste e com uma espécie de “kilt” escocês na parte de baixo. Talvez a semelhança da sonoridade do oboé com a gaita‐de‐foles tenha inspirado o artista nesta associação de vestuário.

O instrumento enquadra‐se, pelo aspeto, nos oboés da época barroca. Pelo período da pintura, embora se não distinga, terá, pelo menos duas chaves, na parte inferior.
[…]
A Viola de braço encontra‐se na sétima almofada do armário […]. O músico, sentado no exterior, considerando o elemento vegetal a seu lado, encontra‐se em atitude de tanger o instrumento pela posição dos dedos e do arco sobre as cordas. O traje é elegante, composto de veste, sobreveste e culotes, e de barrete na cabeça. Pela inversão da posição do instrumento, a pintura utilizou a técnica do Poncif, muito comum na cópia destas pinturas: a imagem é “passada” do papel através da picotagem com uma agulha, em intervalos regulares, aplicando‐lhe pó de carvão embebido num pano em forma de trouxa (conhecido como “boneca”), fazendo passar o pó através dos orifícios, resultando um desenho pontilhado que, posteriormente, é completado (CAETANO, 2008: 88).
[…]
O guitarrista, na oitava almofada, afina o seu instrumento: a mão direita sobre as cordas e a mão esquerda no extremo do braço a regular a afinação de cada uma delas. A guitarra está sem alça, o que justifica a posição sentada do músico. A cena musical é ao ar livre, pela representação dos dois arbustos que ladeiam o guitarrista. O vestuário do músico enquadra‐se nas vestimentas dos séculos XVI e XVII, com veste e culotes, e de gorgeira à volta do pescoço (HILL; BUCKNELL, 1967: 74 a 79).

Esta figura do guitarrista foi inspirada numa conhecida pintura do francês Jean‐Antoine Watteau, o criador do rococó em França. A obra onde o “decorador” desta almofada do armário foi buscar a ideia tem como título “La Surprise”. Reproduz um músico a afinar a sua guitarra enquanto um casal se beija apaixonadamente na presença de um cão. O quadro inspirador foi pintado em 1718.»
Eduardo Magalhães

Sabia que… o armário era o móvel onde antigamente se guardavam armas?!

A palavra “Armário” vem, com esse significado, do latim armarium.

Mais tarde, esse nome generalizou-se para móvel de madeira, de metal ou de outro material – com prateleiras, gavetas e portas – utilizado para arrumar roupa, loiça, livros, entre outros objetos.