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PDdep0018

Cena Campestre alusiva ao Verão
Autor: Desconhecido
Centro de Fabrico: Desconhecido
Data: Século XVII (?)
Material: Óleo sobre tela
Dimensões (cm): Alt. 49,8; larg. 67
Proprietário: Geosil – Empreendimentos Agrosilvícolas, S.A.
N.º de Inventário: PDdep0018

A pintura apresenta uma cena campestre que nos mostra, na parte superior, um arvoredo que se abre para mostrar uma paisagem de céu nublado com algum contraste de luz e sombra. Já na parte inferior, observam-se diversas personagens que trabalham no laborioso fabrico do vinho. Nesta parte, o pintor usa uma intensa luz frontal, dirigida a cada um dos três principais núcleos de trabalho do vinho: a maturação da uva, o mosto e a fermentação.

No lado esquerdo, vê-se um casal observando uma videira para avaliar a maturação da uva. Perto destes, está um homem que pisa uvas numa larga selha de madeira. Já do lado direito, está uma mulher ajoelhada a provar e a avaliar a qualidade do mosto. Do seu lado esquerdo, surge uma junta de bois, que puxa o carro onde está colocada uma enorme cuba de madeira, para o transporte do mosto até à adega. Do lado direito da provadora, está um outro homem que despeja um cesto de uvas numa outra selha. Serão, provavelmente, uvas brancas que receberem um tratamento separado da uva tinta.

“A Flora nas coleções do Paço”
«As pinturas que se encontram expostas no Paço dos Duques de Bragança […], de pintor anónimo, e de execução provável no século XVII, são cópias de gravuras que circulavam à época e que se disseminaram pelos vários cantos da Europa.

A autoria das gravuras originais deve-se aos irmãos Sadeler – Johann (1550-1600), Raphael (1560/1-1628/32) e Aegidius (1555-1609) –, membros de uma das dinastias mais importantes de gravadores flamengos que dominou o mercado no norte da Europa, abarcando também a região do Veneto, desde a segunda metade do século XVI até finais do século XVII.

A grande reputação dos irmãos Sadeler foi granjeada precisamente através da difusão destas gravuras sobre as estações do ano que eram, em última análise, reproduções de uma série de pinturas de Jacopo Bassano e da sua oficina.

Denominada As Estações, esta série (1574-75), tinha sido concebida por Jacopo da Ponte, também conhecido por Jacopo Bassano (1510-92), influente pintor da Renascença veneziana. As pinturas focavam as tarefas sazonais da vida rural, representadas de uma forma naturalista que, em primeiro plano, evocavam o ideal da alegria no trabalho do campo e onde tudo parecia fluir ordenadamente.

Os quadros […] sediados no Museu de História de Arte, em Viena, estiveram na génese das gravuras e das duas obras existentes no Paço dos Duques.
[…]
Curiosamente, [est]a pintura […] foca-se unicamente na tarefa da vindima, sem qualquer alusão ao semeador e omitindo qualquer outro detalhe. No primeiro plano de ação decorre o ato da apanha e pisa das uvas, evidenciando, provavelmente a importância capital que a vindima tinha na economia familiar, transversal a todas as classes da sociedade portuguesa.

Dentro do ciclo cultural da vinha, o tempo da vindima proporcionava uma tarefa menos penosa pelo que nela participavam idosos, mulheres e crianças, como ainda hoje acontece, indiferentemente de muitas vezes a vindima estar longe de ser um trabalho fácil. No entanto, do ponto de vista económico era um trabalho nobre que assistia às mulheres executá-lo de pleno direito.

De uma maneira geral, segundo as regras cistercienses em Portugal, a vindima iniciava-se em setembro com as castas brancas, preferencialmente, segundo a tradição, no minguante lunar, e prolongava-se até ao final de outubro.

As uvas eram vindimadas, à mão ou com uma simples navalha, para cestos vindimos, depois passadas para poceiros e daí para dornas montadas em carros de bois que eventualmente as levariam aos lagares. Contudo, em terrenos acidentados, construídos em patamares, como era, muitas vezes, o caso em Portugal, o transporte era feito de forma manual com homens a carregar com cestas de vime às costas com um peso de uvas que poderia ir até aos 70 kg., o que desencadeava o processo da fermentação por esmagamento, durante o próprio transporte, antes das uvas chegarem aos lagares atestados.

O outono era também o tempo natural da apanha dos frutos do pomar, mas, em Portugal, os dizeres do calendário vitivinícola suplantavam quaisquer outros.
[…]
É também no outono, assente na cultura da vinha que varre o país de norte a sul, quando ocorre o momento sublime da transformação cromática das parras e das árvores de folha caduca que ainda persistem nas florestas de Portugal, como os carvalhos, negral e cerquinho, o choupo-branco, o vidoeiro ou o ulmeiro. Matizes de amarelo, laranja e vermelho misturam-se com o verde remanescente e o castanho senescente, criando um dos mais belos e empolgantes quadros que a natureza insiste em nos oferecer.»
Sasha Assis Lima