Horário diário: 10:00 - 18:00

MNAA2040

Anunciação
Autor: Desconhecido
Centro de Fabrico: Portugal
Data: Século XVIII (?)
Material: Óleo sobre madeira
Dimensões (cm): Alt. 149; larg. 115
Proprietário: Museu Nacional de Arte Antiga
N.º de Inventário: MNAA2040

O Arcanjo Gabriel aparece no lado esquerdo da tela e a Virgem está sentada a ler apoiada numa mesa com uma toalha carmim, significando sangue e esperança. Sobre a mesa encontra-se uma jarra que tem várias flores, entre as quais se distingue um lírio branco direcionado para a Virgem, simbolizando a sua pureza.

A Virgem está vestida com túnica rosa (simbolizando tristeza, por saber que o seu filho viria ao mundo para sofrer) e com um manto azul (evocando o celestial). O Arcanjo, que surge representado a abençoar a Virgem, traja com vestes de cores suaves como o verde (esperança) e está descalço. Traz na sua mão esquerda um estandarte com uma fita branca onde se pode ler “Ave Maria Gratia Plena” (Ave Maria cheia de Graça).

“A Flora nas coleções do Paço”
«A açucena foi a flor mais estimada no seio da Bíblia e da poesia hebraica. O Cântico dos Cânticos refere-a oito vezes como shoshanat haamaquim – Quase sempre traduzido para português como lírio-dos-vales. Transformando-se no próprio símbolo de Israel, a flor fica associada à estrela de David e o seu motivo de seis pétalas virá a adornar um extenso grupo de elementos arquiteturais e de pinturas murais do mundo antigo, como emblema da soberania de reis. Aliás o seu nome em português, açucena, deriva do nome árabe as‐asawsan, uma derivação do nome na língua franca aramaica shoshanta que tem por raiz shesh (seis), o número das pétalas da flor e o número da força simbólica do hexagrama, ou a perfeição dos dois triângulos que espelham as qualidades hermafroditas da reprodução da flor.

O étimo latino lilium que define o género das açucenas vem do grego leírion. A planta que já era bastante comum no Egipto, difunde-se provavelmente em zonas da região mediterrânica através dos Fenícios, embora só no dealbar do primeiro século da era cristã, se torne semi-espontânea nos territórios do império romano, sendo hoje considerada uma espécie europeia. Na mitologia grega, as flores representavam as gotas de leite que caíram do peito da deusa Hera que, ao despertar, viu-se a amamentar Herácles, o filho que Zeus procriara com a mortal Alcmena. A fúria de Hera fez com que o seu leite mágico se dispersasse e alcançasse o firmamento transformando-se na Via Láctea.

Com o advento do cristianismo, antes da açucena se converter na flor representativa da candura e castidade e símbolo da virgindade de Maria, é, no mundo bizantino, uma das flores das paisagens paradisíacas. Versando o tema da transfiguração e da glorificação do filho de Deus, através do renascer perpétuo da vida, a açucena celebra a magnificência do mundo natural. No terceiro dia da criação da terra, quando plantas e árvores se propagaram, são quase sempre as açucenas e as rosas as protagonistas nas obras em mosaico dos espaços religiosos bizantinos, como podemos admirar na catedral de Montreal na Sicília.

A par da rosa, a açucena aparece no primeiro lugar entre as flores destinadas ao uso medicinal nos primeiros registos do seu cultivo em jardins medievais, como no Capitulare de Villis, uma série de regras do final do século IX do período carolíngio.

A partir dos finais da Idade Média, a flor de pétalas brancas de puro acetinado ficou particularmente associada à Virgem. Na representação constante observada por todo o mundo ocidental cristão, o mensageiro da Anunciação, o Arcanjo Gabriel, segura um ramo de açucenas nesse ato simbólico da Imaculada Conceição e, se as pétalas brancas eram a indicação da sua castidade, os estames de amarelo brilhante, como o ouro, simbolizavam a alma radiante de Maria.

Também José ficou associado à representação das açucenas.»
Sasha Assis Lima